sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Coreografia

Engraçado. Ontem tive a impressão de passar mais tempo em ônibus do que em terra. Mais tempo em viagem do que em destino. Que bom que não gosto de matar o tempo, a gente vive muito pouco para se dar tais luxos. Comecei então a observar janela a fora: muito cinza, mas graças ao bem da leveza um pouco de verde. Após um tempo olhando, percebi uma certa familiaridade surgir. Não sei bem. Naquele movimento todo, o barulho parece sumir. Não ouvia, apena via. Céu nublado, dia típico, talvez uma garoa fina. Ao fundo prédios: sérios; imponentes; competindo por austeridade ou por nada. Dali não saiam risadas. Casas pequenas tentavam alegrar mas eram pequenas demais e não se faziam ouvir. Em frente postes e árvores. Por fim pessoas, que ao ver me pareceram um pouco com os prédios. Observei tudo e num instante vi tudo girar: prédios se movendo a passos de formiga; casas gentis que reverenciavam a luz do dia; postes que corriam num circulo maior ainda; árvores que tentavam fazer leve a vida; pessoas formando uma certa corrente, corrente de Josés e Marias. Parecia mais uma dança, uma coreografia. Então sem aviso prévio o ônibus parou. E assim a dança cessou. Desejei estar na rua, correr e olhar ao lado para salvar aquilo tudo, fazendo tudo girar de novo por mim mesmo.
Não precisa ser grande como um prédio nem folha que balança, as vezes um telefonema sem motivo já basta para fazer uma dança. Pode ser aquela manhã de sol e frio onde se pula de sombra pra luz que vai te ver dormir a tarde, e quero dizer que é cru mas com certeza raro. Quando o mais simples movimento parecer ensaiado, desconfie, isso não acontece todo dia. Assim cada um compõe: escolher quem com você irá dançar; definir antes os movimentos ou se deixar levar; executa-los com a parcela de você que deles são dignos; torcer pra não cair; e entre tudo isso a trilha sonora definir. Essa tal coreografia é essa que escrevemos com palavras, silêncios, gestos ou hesitações. Se vive coreografando. Se coreografa vivendo. A linha é mesmo muito tênue.
Voltando as pessoas que se pareciam com prédios, diria que a coreografia já é bonita por ser coreografia, e que sem tristeza não há beleza, mas dela se faz o que você faz de si: tem gente que gosta de dançar em público; há quem dance escondido; tem quem goste sozinho; outros querem música; alguns o silêncio preferem; por fim há quem quer dançar junto, e entre junto e mundo não diferem. Não sei muito sobre pessoas, já que existem tantas andando por ai, mas delas sei uma coisa, que mesmo que espere uma em um milhão vai sempre existir aquela de onde se pode esperar risadas. E nisso sei que estou certo.

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