Sempre gostei das vistas de janelas. E nem falo daquelas paradisíacas de novela ao som de bossa nova ou de manhãs de filmes em hotéis a beira mar. Confesso que estas também tem lá sua beleza. Mas falo mesmo é das que vivem. Aquelas que passam a existir quando se deita na cama e se olha pro lado de fora, pro mundo emoldurado num quadrado de madeira. Aleatórias e sem eira nem beira. Como aquela do meu quarto na cidade: Um pedaço de telhado em baixo d'uma velha antena de tv. Uma árvore na calçada fazendo companhia a um poste doente e de luz amarela. Tudo isso na minha rua, onde podia ver sempre se já tinha alguém jogando bola. E se caso não tivesse corria pra lá assim mesmo, tentar fazer todos jogarem.
Passei então a prestar atenção na janela dos outros e aproveitava as visitas que fazia pra aumentar minha coleção. Do cinza ao verde. Da água diurna as luzes noturnas. Media minhas melhores pelo quanto mais longe eu visse, e achava uma pessoa de sorte quem ali dormia ou passava a tarde. Porém se da janela só parede eu visse, não achava nada. Voltava triste. Mas com a descoberta viva de fundo: "É assim então que esse alguém vê o mundo!"
De tantas enfim, a que mais gostava era a janela de uma casa no interior onde passei muito tempo de menino: A copa verde de uma mangueira alta e cheia de manga, em cima do telhado de barro de um rancho laranja. Céu azul ou dourado. A cor era questão de gosto. O tempo lá, era um rei deposto, que como cidadão me fez amigo e concordou num almoço: O abraço da cama numa tarde de sábado, é a prova de quem ama. É a preguiça num só laço. É vento que entra e sai do cais. É saudade que atrasa o passo. É - imensamente - paz.
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